segunda-feira, 9 de julho de 2018

Nota de Despedida



Por Bertho Horn

A você... e aos demais.
Vamos falar de uma parte de mim. A parte maior que não partiu ainda. Esta que está aqui agora e lá longe também.
Minha história é manca, deficiente e debilitada.
Quando não são com elas mesmas, pessoas amam a desgraça. Gostam de sorrir e acenar pra ela, como uma miss Sempre Inverno. Que inferno. Vamos falar pra esta parte que ouve tantas vezes por tantas vozes a mesma mentira, o mesmo “tudo vai ficar bem” de tantas gentes de brancos dentes. Às vezes só há um jeito de se escapar. E você deseja. Do que os outros dizem e do que você cansa de repetir pra si mesma. De tantos jeitos.
Eu, em segredo, enfio agulhas nas minhas veias. Elas doem. As veias. Os caminhos que o aço inoxidável percorre dentro de mim. Eu os sinto. Viajando. Nenhuma delas ainda chegou ao seu destino. Na grande casa, prisão ou orfanato onde residem todos os sentimentos que ninguém mais precisa. Ou quer. Ou deseja. Sim. É verdade. O orfanato. A prisão. E as agulhas.
Meu pai não quis ser meu.
Minhas amantes não almejaram ser minhas.
Meu filho, este... ele não me avisou quando se retirou. Pra ele eu era um inconveniente. Pra mim, poderia ter sido a descida do vagão. Poderia ter sido aquele que mais amei. Minha redenção, minha salvação, sabe. A parte. A chance de eu poder ser alguma outra coisa melhor que isto aqui. Esta caixa de carne, lágrima, saliva, suor, merda, mijo e autoestradas de sangue e pus cheias de agulhas e sentimentos deficientes, escoriados, mutilados, órfãos.
Vocês não sabem o que é a Dor. Não sabem como dói saber que as melhores coisas que você poderia querer nunca serão escolhidas por você, mas sempre por outra pessoa. Parece que outra pessoa sempre viverá os acontecimentos que você sonhou pra si mesmo. E temos esta ilusão estúpida de sermos nós o centro de tudo. Nunca estamos no centro de nada. No máximo somos um filtro já sujo e velho demais de toda esta latrina. Localizados entre o passado mofado e o futuro cheirando a cândida. Juntamos os dejetos descarregados dia-a-dia sobre nós. E somos nosso próprio genocida particular.
Nada passa na traqueia trancada, espremida entre ânsia e asma. Ninguém nunca nos explicou de verdade o “e se não ficar bem?”. O que devemos fazer quando “não está tudo bem”? Quando o trem continua andando, enquanto nós queremos desesperadamente descer, o que devemos fazer? O que devemos fazer quando nossa redenção é negada? O que fazer com toda esta experiência e chorume herdados ao longo dos dias? O que fazer quando não resta mais NADA a se fazer? E se o drama for algo que se herda como os olhos azuis e o cabelo enrolado?
Estamos deliciosamente perdidos e perdidamente equivocados. Esperamos por tanto tempo as mentiras se tornarem verdades, que abrimos mão de sermos o que deveríamos ser pra nos tornarmos outras coisas. Nos distanciamos tanto. Tanto. Tanto, ao ponto de rirmos e nos deleitarmos quando alguém surge e diz todas as verdades, nossas verdades, aquelas todas que um dia deveríamos ter dito.
É estranho querer afagar o rosto mais lindo que eu nunca vou conhecer de verdade. Isso é passado. E o passado é um espectro com olhos de abismo. E enquanto isso, as agulhas seguem seu curso. Mais uma está a caminho. Dói. De verdade. Como a falta. Como não ter umbigo. Como não ter descido. Como ter mentido. E por ter, tanto tempo, esperado.
O que você faria? Aqui, no meu lugar?
Este é o fim.
Um deles.
O que vai iniciar de vez todas as outras coisas.
Além.

quinta-feira, 5 de julho de 2018

Debaixo da Cama






















Debaixo da Cama talvez seja o projeto mais pessoal, estranho e contundente sobre mim nestes últimos anos... 20 imagens dialogando, se digladiando, se misturando para compor um único sentimento...
Definitivamente um ponto final num capítulo confuso e escuro na minha vida

No livro, as ilustrações impressas em papel vegetal transparente, vão se sobrepor, entrar no espaço uma da outra e incluir mais profundidade e detalhes, tornando a experiência de ler muito mais visceral

segunda-feira, 21 de maio de 2018

O Elogio da Loucura - Versão Ilustrada para crianças!


Neste edição do teólogo Erasmo de Rotterdam quem fala é a Loucura.
Ao contrário do que os adultos falam, ela não é uma doença ou uma parte indesejável da sua personalidade e aqui ela poderá ser apreciada em sua forma mais fofucha.
Veja aqui como suportar a vida, com suas desilusões e desventuras. Veja o passo-a-passo da Loucura suprindo as pessoas de um ímpeto vital irracional e incoerente.
Aprenda a criar e firmar laços de amizade entre os seres perfeitamente imperfeitos e defeituosos.
Saiba como criticar os adultos chatos e racionalistas.
Aprenda a costurar uma colcha de compaixão para por sobre a natureza humana.
E mais:
Passatempos, figuras estranhas e desconexas para colorir, e labirintos que não tem saída alguma e muito, muito mais! Ou não...

E lembre-se: seu amigo imaginário é o mais confiável do mundo, afinal, ele sempre está perto de você

Necronomicon - Versão Ilustrada para crianças!!!


Neste livro ricamente ilustrado com páginas de pele humana devidamente higienizadas você aprenderá de forma divertida a:
Definir o que é aquela massa estranha chamada Shub-Niggurath;
Conjurar Nyarlathotep para inúmeras brincadeiras;
Clamar a Azathoth quando seus amiguinhos de escola estiverem cometendo bullying contra você;
Chamar Yog-Shothoth quando estiver entediado durante uma briga entre seus pais;
E, finalmente, entenda e saiba o que levar em suas viagens quando ouvir o chamado de Cthulhu

E mais passatempos, criaturas para colorir e muitas atividades que farão de você a criança mais legal da escola!
Adquira já o seu e faça parte do Grande Horror Universal agora mesmo!

Perpétuos (versão feminina)










Foram 3 semanas árduas de trabalho e pesquisa (principalmente sobre símbolos e pinturas corporais de tribos pelo mundo afora) e sobre os personagens da DC - Vertigo criados por Neil Gaiman, Sam Kieth e Mike Dringenberg
Foi um excelente exercício onde pude apresentar os Perpétuos como mulheres (sim, alguns já eram mulheres) e testar técnicas diferentes de pintura...
Espero fazer mais destes ao longo do tempo
Prometo, assim que possível, começar a vendar os pôsteres em tamanho A4 e A3...
A quem acompanhou, curtiu, amou, compartilhou e etc... valeu. É sempre um prazer saber que o que faço faz com que vocês sonhem, se deslumbrem e se esqueçam da realidade cinza, mesmo que por poucos segundos
Quem quiser fazer considerações, perguntas, comentários ou análises sobre as versões, façam cá abaixo nos comentários que farei o possível pra responder

Paz à todos

quinta-feira, 8 de março de 2018

Eu... vendo os meus sonhos e esperanças indo embora...


Alcance - E a história da exposição que nunca acontecerá













Sobre a Zilda e eu
Bertho Horn


Eu me lembro de estar com muita raiva quando rabisquei seu rosto. Lembro de pensar "eu poderia nunca mais falar nada, não emitir mais nenhum som e substituir tudo por imagens". E foi assim que ela falou comigo, me jurando tentar ser a melhor companhia que alguém poderia ter. E ela tem cumprido sua promessa até hoje. Mesmo quando passo alguns dias trabalhando em outra coisa, em outros projetos pra teatro ou em livros ou música. Lá está ela, de canto, me direcionando, me dizendo coisas legais e me cobrando sempre por trabalhos e posturas melhores e mais corretas.
Enquanto todos os outros dividiam seus segredos em caderninhos decorados ou falavam com melhores amigos, ou simplesmente não falavam, eu a desenhava. Absorvia o que lia e praticava em desenho com ela.
Ao longo do tempo, claro, ela envelheceu junto comigo.
Teve tantos conhecidos (eu nunca achei que tivesse algum amigo de verdade) quanto eu e eu a desenhei passando por exatamente tudo o que passei. As humilhações todas, as dores todas, as recusas, os tapas, a solidão... Todos os sentimentos.
Eu me exumei, repassei cada dor e angústia. Eu as esbocei, arte-finalizei e, em algumas, pintei. Eu me expus ao mundo. Sem dó, assim, como quem conta uma noticia boba.

Um dia eu a lancei ao mundo. E devido a sua/minha postura diante da vida, ela apareceu numa grande revista, a Capricho. Naquela ocasião eu havia mandado pra todo canto diversas cartas contendo uma revistinha dela, feita com esmero e cuidado. Nada marginal, não. Fiz todo o acabamento em umas 10 revistinhas, coloquei marca-páginas, fotos de trabalhos meus numa embalagem bem feita. Um envelope decorado e tudo o mais.
Lá estava ela, gordinha cheia de problemas, falando de sentimentos profundos e afrontando padrões descaradamente.
A única resposta que tive, via telefone, foi da revista Capricho. Quando fui até lá na redação eu a vi (meio deslocada), mas exposta a todos num mural onde se podia ler com letras azuis "COISAS LEGAIS QUE APARECERAM NESTE MÊS".
Fiquei contente.
Me foi dito em segredo que, em partes, ela era necessária ali. Nas pequenas reuniões que tinha com o meu editor ele sempre deixava claro que as coisas que eu escrevia iam de encontro a uma realidade totalmente diferente e que isso era genuinamente bom. Claro, algumas tiras eram impossíveis de serem publicadas, mas era vistas e provocavam sentimentos. Elas provocavam!
Algumas conseguiram ir pra rua em milhares de revistas enquanto outras ficavam lá, expostas. Durante todo aquele ano ela afrontou tudo o que era publicado, à sua\minha maneira eu destilei meu ódio profundo e colorido nas tiras. Eu via risos naturais, risos fingidos e risos nervosos. Ela era um modelo ímpar dentro de uma publicação da moda.
Cheguei a inscrever Zilda num concurso de moda dentro da publicação, sem que meu editor soubesse, claro. Fiz uma ilustração grande a aerógrafo, com uma técnica pretensiosa, realista na medida do possível. Quando voltei à redação, novamente, lá estava o cartão de quase um metro exposto. Algumas pessoas me cumprimentavam pelo trabalho. Outros me olhavam com um profundo desprezo. Porque me foi dito, em alto e bom som, que ela quase ganhou. Uma garota toda afetada, que aparentemente não entendeu a piada, disse entre dentes "ate parece que uma gorda assim ia ganhar alguma coisa". Naquela roda alguns riram do que a garota afetada disse. Eu só olhei pra ela, sem rir, e disse, em alto e bom som, "deve ser muito triste ser você".
Ao final de um ano, devido a uma reformulação editorial, saímos de lá.
Mas sua/minha vida prosseguiu.
Dei a ela um lugar legal pra morar, uma cidade. Dei a ela a minha casa desenhada em todos os detalhes, mas com um adicional do estúdio no andar de cima, algo que sempre sonhei em ter.
Uma palavra sobre a cidade onde ela mora, creio que foi meio baseada em Sona-Nyl (citada no conto A nau branca de HP Lovecraft). Porem, na cidade de Lovecraft, não havia dor ou morte enquanto na minha havia lá morte e alguma dor mas, como no conto, ela é fora do tempo e é coberta pelo nevoeiro em boa parte do dia. Eu gosto de nevoeiros.
Apesar e ela ser uma personagem feminina nunca ousei adentrar a intimidade feminina, creio que devo falar apenas sobre o que me dói enquanto ser humano de uma forma bastante especifica e não sobre as turbulências da menstruação, por exemplo. Seria uma mentira bastante grosseira e acredito que qualquer visão masculina a respeito da intimidade de uma mulher seja desrespeitosa, sem falar estereotipada. Quando escrevo algo sempre mostro a alguma mulher. Já refiz textos de vinte páginas do zero assim com redesenhei paginas inteiras depois de uma simples franzida de cenho, ou de um suspiro mais profundo de uma mulher. Não penso que seja ruim, pelo contrario, quando isso acontece me forço a ser melhor, ter linhas mais suaves e palavras mais lapidadas. Por respeito.
Eu ainda desenho sem criar uma única linha de texto como base. Meu método de criação é ao contrario e acredite, não ha nada aqui por acaso. E só me sento pra desenhar se valer a pena. Eu não desenho nada só por desenhar. Porque desenhar é muito importante pra mim.
Então ainda estamos aqui.
Eu que desenho ela que me desenha.
Eu que falo com ela que fala por mim.
Esta é a verdade, esta é a historia.
Se você puder, preste atenção.

Obrigado


 Ps.: Eu descobri, da pior forma que, o pior dia sendo o que escolhi ser é infinitamente melhor do que o melhor dia sendo qualquer outra coisa.

Paz a todos